Moradores da Rua Guarani, na Vila Guarani, em Itapeva, voltaram a enfrentar transtornos causados por fortes enxurradas após as chuvas recentes. O problema, no entanto, está longe de ser pontual. Segundo relatos, a situação se arrasta há décadas e tem causado prejuízos materiais, insegurança e revolta na comunidade.
O trecho mais afetado fica entre a Avenida José Bilesk e a Rua Guarani, onde o grande volume de água desce com força da parte alta do bairro, transformando a via em um verdadeiro corredor de enxurrada. Além de dificultar a passagem de veículos e pedestres, a água invade residências, arrasta lama, pedras e sujeira, e já levou moradores a perderem praticamente tudo o que tinham.
Há relatos, inclusive, de um jovem casal que havia acabado de se casar e perdido toda a mobília após a água invadir a casa. Para tentar minimizar os danos, muitos moradores construíram muretas improvisadas nas calçadas e barreiras na entrada das residências, numa tentativa desesperada de conter a força da água.
“Aqui vira uma cachoeira toda vez que chove”, relata moradora
A dona de casa Joceli, moradora da Rua Guarani, conta que qualquer chuva já é suficiente para causar alagamentos. “Não tem como passar e nem sair de casa. A água sobe muito rápido, a correnteza é forte. Parece uma cachoeira vindo lá de cima”, relatou.
Segundo ela, a lama invade o interior da residência, obrigando os moradores a limparem tudo repetidamente. “Já lavei tudo aqui hoje, mas entra lama pura. Coloco tábua na garagem, tampo ralo, tudo para tentar evitar que entre água e esgoto”, explicou.
Além da força da enxurrada, moradores apontam que os bueiros existentes não comportam o volume de água, ficando rapidamente obstruídos por sujeira e entulho carregados pela correnteza.
Moradora há 50 anos afirma que problema existe há mais de duas décadas. Outra moradora, Luciana, que vive na região há cerca de 50 anos, afirma que o problema se intensificou nos últimos 25 anos. Segundo ela, a água desce de bairros mais altos, como Jardim Maringá, Jardim Europa e região da Cecap, passando pela Avenida Gastão de Vidigal e concentrando-se na Rua Guarani.
“A água vem com muita força e alaga as casas. A minha já alagou várias vezes. Por isso, praticamente todas as casas fizeram muretas nas calçadas. Não é o correto, mas é a única forma de tentar se proteger”, afirmou.
Luciana também destaca que, apesar da recente pavimentação asfáltica ter melhorado a via, o asfalto acabou aumentando a velocidade da água. “A obra foi importante e somos gratos, mas a chuva está cada vez mais forte, e o volume de água só aumenta”, completou.
Segundo os moradores, há anos a comunidade realiza abaixo-assinados e reuniões com diferentes gestões municipais. Um projeto de drenagem já teria sido apresentado pela Prefeitura, mas nunca saiu do papel. A área por onde a água passa também seria destinada à abertura de uma rua que ligaria a região à Avenida Vaticano, nos fundos do estádio municipal, o que ajudaria a reduzir o impacto das enxurradas.
Secretaria de Obras reconhece problema, mas afirma que obra custa cerca de R$ 33 milhões.
Procurado pela reportagem, o secretário municipal de Obras, Luciano Vidal, reconheceu a gravidade da situação e afirmou que o problema é histórico e está ligado à ocupação desordenada da região.
“São bairros antigos que não possuem sistema de drenagem adequado. Toda a água acaba escoando superficialmente e se concentrando na Rua Guarani, causando essas enxurradas recorrentes”, explicou.
Segundo o secretário, a solução definitiva exige uma obra estrutural de grande porte, com custo estimado em cerca de R$ 33 milhões. “Não é uma obra simples. Se o município retirasse esse valor do caixa hoje, comprometeria áreas essenciais como saúde, educação e manutenção urbana”, afirmou.
Luciano Vidal destacou que a Prefeitura já possui estudos técnicos, projetos prontos, mas depende da liberação de recursos estaduais ou federais para viabilizar a obra. “Seria irresponsável dar uma data ou iniciar uma intervenção paliativa que não resolvesse o problema e acabasse sendo destruída pelas chuvas”, completou.
Como medida emergencial, o secretário orientou os moradores a utilizarem comportas nas residências. Aqueles que não têm condições financeiras podem procurar a Secretaria de Obras para avaliação da possibilidade de execução pelo município.
Em nota oficial enviada ao Jornal Itapeva Alerta, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano afirmou que o problema de drenagem na Vila Guarani e regiões adjacentes é antigo, legítimo e reconhecido pelo poder público.
Segundo o comunicado, a solução definitiva envolve uma obra estrutural de grande porte, com estudos hidráulicos e intervenções profundas, cujo custo ultrapassa os R$ 30 milhões, valor que atualmente está fora da capacidade financeira do município.
A Prefeitura destacou que trabalha em duas frentes: medidas emergenciais para reduzir os impactos imediatos e a busca por recursos junto aos governos estadual e federal. A administração municipal reforçou que não pretende fazer promessas sem garantia orçamentária e que o problema não está sendo ignorado.
“A população pode ter certeza de que esse problema está sendo tratado com seriedade, transparência e responsabilidade”, finaliza a nota.







